No filme La leggenda del pianista sull'oceano, de Giuseppe Tornatore, o personagem principal chamado Nineteen Hundred ("
«Estou habituado a tocar nas 88 teclas do piano; são finitas. Eu é que sou infinito e a música que faço a partir delas também é infinita. Cresci aqui e não tenho outra identidade.
Quando tentei sair lá fora (do navio), o que me assustou não foi o que vi, mas o que não vi! O exterior parace-me um "piano" de teclas infinitas. Esse cabe a Deus tocar. É um piano com teclas demais para mim. Por isso, escolho ficar…»
É verdade! O piano tem 88 teclas e com elas foi composta e interpretada música estupenda como a que ouvimos esta semana neste blog, da banda sonora do filme referido, composta por Ennio Morricone.
Também é verdade que o mundo, o que vemos à nossa volta, ou seja, a Criação, é um "piano" grande demais para o homem tocar. A este, Deus deu somente "88 teclas", chamando-o a colaborar naquela maravilhosa obra (cf.
Esta reflexão não pretende enclausurar o leitor num "navio", mas a considerar que a partir dos nossos limites nos é dada pela graça de Deus a possibilidade de vivermos uma aventura infinita. Cabe a cada um de nós vivê-la conscientes desses limites, assumindo-os, e, ao mesmo tempo, na certeza do que Deus realiza a partir de nós com os seus dons.
Não ter medo de percorrer esta aventura (exortação sobretudo dirigida aos jovens de hoje) significa ― sem termos de tocar mais do que "88 teclas" ― decidir que "música" original havemos de compor com elas, tocando as nossas melodias de acordo com a harmonia misteriosa do infinito.